Em entrevista, britânica fala sobre o preconceito que sofreu durante sua transição
Quando mostra a foto das filhas, de 23 e 4 anos, a inglesa Meghan
Stabler, de 52, usa frases doces e pausadas. Muitas vezes, se emociona.
Mas o tom assertivo se impõe quando ela começa a falar das atividades
como executiva de uma das maiores empresas de tecnologia dos Estados
Unidos e de sua atuação como ativista pelos direitos da mulher e de
transgêneros.Com a intensidade que quase não cabe em 1,85 metro de
altura, defende a pauta com a mesma força que busca a igualdade de
relações no mundo corporativo. Especialista em linguagem de programação,
a conselheira da empresa americana CA Technologies recebeu O GLOBO
durante visita ao escritório da companhia em São Paulo, para contar sua
experiência desde os tempos de terno e gravata. Meghan conta sobre como
assumiu sua transexualidade quando tinha 40 anos, sofreu preconceito no
trabalho, foi afastada da filha por sete anos e pensou em se matar. Mas
reagiu e, em 2014, recebeu o título de "Working Mother of the Year" (Mãe
trabalhadora do ano, numa tradução livre), nos EUA.
Você está no Brasil para falar debater como a tecnologia pode
ajudar a resolver as questões de gênero nas empresas. Quais as maiores
dificuldades para isso?
Na verdade, ela pode ajudar com tudo, a trazer novas ideias. E
conseguimos isso melhor com grupos diversificados dentro das empresas,
sem exclusões. Uma das dificuldades é que você tem diferentes conceitos
na sociedade. Aqui no Brasil, por exemplo. O governo tem programa social
para mães solteiras que precisam trabalhar e não tem com quem deixar o
filho? Nos Estados Unidos, quatro mulheres estão num programa da Nasa
com potencial para ir à Marte. É uma equipe com quatro mulheres e o
mesmo número de homens. Precisamos de programas assim, que encorajam
essas pessoas, que diga que elas podem entrar na área de tecnologia, da
ciência, com equipes iguais... Temos que mudar esse conceito do sexo
masculino predominante.
Como entrou para esse ramo da tecnologia?
Nasci na Inglaterra e, aos 13 anos, gostava de brincar com computador,
códigos e programação. Aos 17 comecei a trabalhar no ramo. E eu
contratava pessoas. O que mais me importava ali era a paixão delas, o
comprometimento, o que elas podiam fazer, não apenas a faculdade. Olhava
nos olhos. Qualificação é importante, mas nessa hora você não pode ver
se a pessoa é negra, branca ou gay, e sim o que ela vai te trazer,
desenvolver, vender.
Como começou sua transição?
Eu estava em Nova York quando perdi muitos amigos no 11 de Setembro
(2001). Naquele momento pensei no quanto a vida é curta. E eu ali, na
posição de um executivo de muito sucesso, vivendo uma vida muito boa,
mas fingindo ser alguém que não era. Ninguém a minha volta tinha ideia
do que estava acontecendo dentro de mim. Resolvi aceitar uma proposta de
outra empresa de tecnologia em Austin, no Texas, e me mudei com minha
família. Mas quanto mais me dedicava ao trabalho, mais a Meghan batia na
porta.
E a mudança foi de imediato?
Primeiro fiz terapia para tentar entender o que eu era, porque me olhava
no espelho e conseguia vê-lo, mas não a mim. Durante esse processo
mudei as vestimentas e comecei a ir para o trabalho de outra forma. Mas
as pessoas eram muito religiosas. Minha carreira começou a declinar. Fui
sendo rebaixada de cargo. Veja, continuava sendo eu, trabalhando do
mesmo jeito, dando os mesmos resultados, mas ficaram com medo do que uma
trans podia significar para os clientes.
Você não teve medo de perder o emprego?
Sim. Estava preparada para perder o emprego, mas também estava preparada
para ser eu. Me preparei para sair de uma posição de executivo para
arrumadeira de hotel. É o que acontece com pessoas trans. Aqui no Brasil
tem o mesmo problema, de empregar essas pessoas. Mas tudo que elas
querem é ser autênticas. Elas não querem fazer isso para aparecer. Isso é
identidade de gênero, é como elas se sentem, se identificam.
E qual foi a reação da sua mulher?
Tentei contar para minha mulher, e ela me expulsou de casa, tirou tudo
de mim, levou minha filha. Não teve compaixão. Acho que não falei com
minha filha por uns sete anos.
E a reação das pessoas, dos amigos?
Percebi que o mundo carrega muito ódio. As pessoas não gostam de gente
diferente. Passei o Natal, Ação de Graças e aniversário sozinha. Isso é
extremamente infeliz. Então considerei que o certo para mim era tirar
minha vida. Peguei minha arma e dirigi por horas com ela, mas percebi
que se puxasse o gatilho repetiria o que tantas outras trans fazem,
refleti sobre as que são assassinadas, as que se escondem, e pensei: “eu
vou conseguir, vou sobreviver”.
Você se demitiu?
Não. Em 2010, quando já estava em processo de transformação, votei para a
CA e foquei em estimular a contratação de mais pessoas LGBT e trans.
Não por causa das suas condições, mas por suas habilidades. Não olhamos o
rótulo. Queria que mais companhias no Brasil fizessem isso. Tem muitas
coisas para se fazer. É só olhar o número de homens e de mulheres nas
empresas. E o salário. Quantos homens e mulheres vocês têm como chefe?
Temos homens e mulheres com as mesmas qualificações.
Brasil é apontado como um dos países onde mais morrem transexuais assassinadas...
Isso é triste. Algo precisa ser feito. Não é barato nem fácil passar por
um processo de transição como esse. Para conseguir dinheiro, as trans
vão para as ruas, recorrem ao sexo, ao roubo e se expõem à violência.
Tudo por hormônios, silicones injetáveis, e isso mata todo tempo. Elas
precisam de medicamentos, de médicos, segurança. O que o Brasil está
fazendo para mudar isso?
Um tradicional colégio no Rio de Janeiro, o Pedro II, permitiu o uso de
saia por alunos, e hoje as escolas aceitam o uso do nome social. Já é
uma mudança, não?
Interessante. Nós temos um problema sério com banheiros. Eu hoje sou
inteiramente mulher, mas se eu for à Carolina do Norte agora e usar o
banheiro feminino num restaurante, posso ser presa, porque lá você só
pode usá-lo de acordo com o seu sexo biológico.
Como foi contar para seus pais sobre sua opção?
Passei um mês escrevendo uma carta. Voei até a Inglaterra, e mostrei
para minha irmã. Ela me abraçou, chorou e disse que lamentava por estar
perdendo um irmão, mas que estava feliz por ganhar uma irmã. Minha mãe
teve o choque inicial, achou que eu estava usando drogas, mas aceitou.
Meu pai falou para eu fazer o que fosse preciso.
Suas filhas já sofreram algum preconceito?
Nenhum. A filha mais velha, hoje com 23, chegou a dizer para alguns
colegas na escola que o pai havia morrido, e eu falei que não era uma
coisa legal a se fazer, mas hoje está tudo bem. Tive uma filha, de 4
anos, com uma outra companheira (por meio de inseminação artificial,
hoje ela não está mais com a mãe da menina e namora uma outra mulher).
Dia desses, ela olhou para mim e disse: “te amo, mamãe”. Fiquei
emocionada.
Qual o seu nome de batismo?
Eu não falo. Aquele morreu.
Você recebeu um prêmio que homenageia mães que trabalham e contribuem
para a sociedade e empresas, o Working Mother of the Year em 2014. Como
foi?
Foi uma grande surpresa e eu fiquei muito feliz que a CA tenha me
indicado para o prêmio. Como qualquer mãe eu tenho que encontrar o
equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal, sobretudo sendo uma mãe
solteira. E esse prêmio é uma homenagem a todas as mulheres e mães no
geral. Os desafios são os mesmos. E fico feliz de poder ser um exemplo
para outras pessoas.
Você atua com políticos na causa LGBT e tem proximidade com a
primeira-dama, Michelle Obama, fez campanha para o presidente Barack
Obama. Como é assistir aos discursos de Donald Trump, que já falou ser
contra casamento homossexual?
Horrível.
Um dos candidatos à prefeitura do Rio, Marcelo Crivella (PRB),
escreveu um livro em que diz que a homossexualidade é um “terrível mal”.
Como é para você escutar isso em pleno século 21?
Mas essas pessoas não são do século 21, são do século 19.
Leia mais sobre esse assunto
em http://oglobo.globo.com/sociedade/a-executiva-transgenero-que-ganhou-premio-de-mae-trabalhadora-20359665#ixzz4ODkYkGc7

Nenhum comentário:
Postar um comentário